Uma websérie sobre o universo de atração, desejo, mágoa e vingança de duas mulheres conectadas por um carma que precisará de mais de uma vida para ser resolvido

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LUNA PENSA DEBAIXO D’ÁGUA

Gente… não tenho vocação para me apresentar! Pronto… talvez aconteça um dia.
Hoje vim aqui por causa da LUNA.
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A água era escura, era gelada… Invadiu cada poro do meu corpo reativando tudo que havia de esquecimento em mim. A vida veio como uma orquestra, a melodia se formando ao meu redor, toda a maravilha no silêncio da água.

Os Primórdios.

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Eu me lembro de sonhar. Era quase da altura da mesa de centro da cozinha.
Lembro que a mulher tinha a pele meio dourada, cabelos castanho-claros e olhos pálidos. E ela cozinhava o dia inteiro.
Agora não posso ter certeza se era isso realmente, ou se eu me lembro apenas de um dia que ela cozinhou muito, e este, por sua vez, prolongou-se no tempo invadindo o espaço em branco deixado nas lacunas da minha memória.
Acho que as memórias de criança são assim. Se alguém penteou o seu cabelo uma vez, parece que penteava todos os dias, se você machucou-se um punhado de vezes, parece que se machucava todo dia.
Não tem como se saber a verdade… E se não tem… Ela pode ser qualquer uma.
Mas eu tenho quase certeza que eu ria e chorava todos os dias. Mas acho que todas as crianças são desse jeito.
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Todos os dias ou não, eu me lembro de muitas travessas com doces, pães, assados e tortas. Lembro nitidamente da sujeira debaixo das minhas unhas roídas quando ameaçava colocar a mão nos biscoitos com geléia, e o meu estômago que revirava, antes de chegar o tapa na minha mão.
Depois passava a tarde debaixo da mesa, vendo os pés dela andarem de um lado para o outro e a miscelânea de aromas no ambiente. Eu queria tanto aqueles doces…
Mais tarde não lembro de mais nada, é como se ficasse invisível.
Lembro do vidro da janela trincado, acho que fui eu que o quebrei com uma pedra.
A mulher dourada, raramente falava comigo, mas salvo eventuais tapas na mão, ela nunca encostou a mão em mim.
De um dia em especial eu lembro do escuro. Estava debaixo da cama, sentia o cheiro da cera fresca no chão. Do lado de fora o fantasma me falava:
– Pode sair Luna, querida… Vai ficar tudo bem…
Eu só olhava para dois pares de pés, um de sapatos negros de bico fino, o outro de sapatos marrons, masculinos, bem-lustrados.
Depois eu fui para casa com a minha mãe, ela me salvou. Ela tinha cabelo preto e pele clara. A gente dormia no mesmo quarto e na mesma cama. Ela contava historias sobre princesas e torres; e as bruxas que as destroçavam.
Ela nunca cozinhou. Mas me dava moedas para comprar pão, e se eu a ludibriasse e comprasse um doce para mim ela fingia que não via.
Ela me dizia que éramos ‘como siamesas’ quando eu perguntava o que era isso, ela me respondia que eram duas pessoas com um coração só. Por isso eu precisava fazer tudo que ela pedia, ou morreríamos. Isso me assustava, e me fazia ter um extremo cuidado com ela.
Entre os pedidos mais freqüentes, ela falava:
‘ Corre Luna, abre a bolsa dela e pega todas as moedas que encontrar’. Eu voltava orgulhosíssima, com as mãos abarrotadas de metal, e jogava no colo dela. Depois eu ria sozinha como uma louca, a adrenalina invadindo meus poros.
Apesar disso me lembro de momentos em ‘flash’, que agora eu acho que aconteceram antes de tudo isso. Lembro-me de estar sozinha sentada em uma cadeira. O sol se pondo e o calor abafado me sufocando pela garganta. As plantas cresciam ao meu redor com carocinhos cor-de-rosa que tinham o cheiro forte acentuado pela temperatura. Meus pés não tocavam o chão, eu chorava e as lágrimas secavam antes de pingar no meu colo.
Ela apareceu na portinha dos fundos. Era mais velha que a minha mãe, e tinha o cabelo da mesma cor.
Ela passou as mãos pelo meu rosto na tentativa de secar minhas lágrimas, o que fez com que elas jorrassem com mais força.
‘ Não chora minha linda… Eu sei que sente saudade da sua mãe’
Ela passou as mãos pelos meus cabelos que estavam emaranhados…
‘ São exatamente da cor de madeira…’
E chorando, eu ri. Por reflexo… Imaginando galhos de arvore crescendo na minha cabeça.
‘Olha que sorriso bonito!’
E eu vi como o sorriso dela é que era bonito! Tipo de fada, ou de princesa!
Depois, à noite com os cabelos molhados eu me sentia tão bem… Dormi na casa da minha tia, e sonhei com aquela tarde toda denovo…
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Ela tem alma de peixe…
Ela ainda tem a eternidade para pensar debaixo d’água…
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… E quando a Luna chega… toca Nobody’s Daughter – hole
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"La Despedida"

Tive vontade de falar de Marina. De falar de Luna através dela. Admito que o passado dessa história me instiga um pouco mais do que o presente. Ocorre o contrário com a Manu. Se ela é Valentina, eu sou Marina: Aquele cheiro de antigo mistério, aquela dor pelo não ser e toda a fúria de não amar. Assim é Marina. E ela se despede.

“La Despedida” é um quadro da pintora Remédios Varo que serviu como uma luva a uma cena do roteiro e como um guia para a estética do passado. A emoção, as cores, a poesia do quadro anseiam por ultrapassar o movimento das imagens de “Bliss” e tocarem vocês. Esperamos tocar intensamente! O êxtase do prazer e da dor. Assim seja!

Marina já foi tocada por um “Bliss”. Agora aguarda a hora de poder falar, de poder concretizar em uma catarse exibicionista, tudo o que guardou. As águas rolam, as sombras se encontram e o destino nunca pára. Eu sou Marina. Eu sou mistério, fome e torpor. E, como dirá Valentina: “A despedida é, por natureza, a sugestão do reencontro”.