Uma websérie sobre o universo de atração, desejo, mágoa e vingança de duas mulheres conectadas por um carma que precisará de mais de uma vida para ser resolvido

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Norte

Manu não conseguiu logar hj. Pediu para eu postar, com este título, as coisas que seguem:
Esse post é pessoal. Depois eu explico.
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Ela é um norte, como o farol no meio do menor pedaço de rocha incrustado no centro mais agitado do oceano onde não se avista terra nem mesmo tendo vista feroz de águia. Os olhos dela brilham em ocre e indicam a direção. Pode não ser a direção certa, mas é o caminho que vai até onde preciso chegar.
Percorri essa rota por mais de três mil anos, em sucessivas vidas as quais vivi pouco, vivi longinquamente, morri recém nascida, fui abortada ou durei o suficiente para conhecê-la de fato.
Se me ocorre o pensamento que ela pode se perder… Só consigo pensar: Vejo-te na próxima existência.
E cada vez que eu olho para ela, eu vejo outra vez, a tempestade, o cinza e a neblina… E vejo a luz, principalmente a luz, pálida e envelhecida que atravessa a tormenta e aquece todos os meus ossos do corpo.
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Homenagem a minha grande amiga. Sim… vc me inspira em Bliss.
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LUNA PENSA DEBAIXO D’ÁGUA

Gente… não tenho vocação para me apresentar! Pronto… talvez aconteça um dia.
Hoje vim aqui por causa da LUNA.
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A água era escura, era gelada… Invadiu cada poro do meu corpo reativando tudo que havia de esquecimento em mim. A vida veio como uma orquestra, a melodia se formando ao meu redor, toda a maravilha no silêncio da água.

Os Primórdios.

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Eu me lembro de sonhar. Era quase da altura da mesa de centro da cozinha.
Lembro que a mulher tinha a pele meio dourada, cabelos castanho-claros e olhos pálidos. E ela cozinhava o dia inteiro.
Agora não posso ter certeza se era isso realmente, ou se eu me lembro apenas de um dia que ela cozinhou muito, e este, por sua vez, prolongou-se no tempo invadindo o espaço em branco deixado nas lacunas da minha memória.
Acho que as memórias de criança são assim. Se alguém penteou o seu cabelo uma vez, parece que penteava todos os dias, se você machucou-se um punhado de vezes, parece que se machucava todo dia.
Não tem como se saber a verdade… E se não tem… Ela pode ser qualquer uma.
Mas eu tenho quase certeza que eu ria e chorava todos os dias. Mas acho que todas as crianças são desse jeito.
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Todos os dias ou não, eu me lembro de muitas travessas com doces, pães, assados e tortas. Lembro nitidamente da sujeira debaixo das minhas unhas roídas quando ameaçava colocar a mão nos biscoitos com geléia, e o meu estômago que revirava, antes de chegar o tapa na minha mão.
Depois passava a tarde debaixo da mesa, vendo os pés dela andarem de um lado para o outro e a miscelânea de aromas no ambiente. Eu queria tanto aqueles doces…
Mais tarde não lembro de mais nada, é como se ficasse invisível.
Lembro do vidro da janela trincado, acho que fui eu que o quebrei com uma pedra.
A mulher dourada, raramente falava comigo, mas salvo eventuais tapas na mão, ela nunca encostou a mão em mim.
De um dia em especial eu lembro do escuro. Estava debaixo da cama, sentia o cheiro da cera fresca no chão. Do lado de fora o fantasma me falava:
– Pode sair Luna, querida… Vai ficar tudo bem…
Eu só olhava para dois pares de pés, um de sapatos negros de bico fino, o outro de sapatos marrons, masculinos, bem-lustrados.
Depois eu fui para casa com a minha mãe, ela me salvou. Ela tinha cabelo preto e pele clara. A gente dormia no mesmo quarto e na mesma cama. Ela contava historias sobre princesas e torres; e as bruxas que as destroçavam.
Ela nunca cozinhou. Mas me dava moedas para comprar pão, e se eu a ludibriasse e comprasse um doce para mim ela fingia que não via.
Ela me dizia que éramos ‘como siamesas’ quando eu perguntava o que era isso, ela me respondia que eram duas pessoas com um coração só. Por isso eu precisava fazer tudo que ela pedia, ou morreríamos. Isso me assustava, e me fazia ter um extremo cuidado com ela.
Entre os pedidos mais freqüentes, ela falava:
‘ Corre Luna, abre a bolsa dela e pega todas as moedas que encontrar’. Eu voltava orgulhosíssima, com as mãos abarrotadas de metal, e jogava no colo dela. Depois eu ria sozinha como uma louca, a adrenalina invadindo meus poros.
Apesar disso me lembro de momentos em ‘flash’, que agora eu acho que aconteceram antes de tudo isso. Lembro-me de estar sozinha sentada em uma cadeira. O sol se pondo e o calor abafado me sufocando pela garganta. As plantas cresciam ao meu redor com carocinhos cor-de-rosa que tinham o cheiro forte acentuado pela temperatura. Meus pés não tocavam o chão, eu chorava e as lágrimas secavam antes de pingar no meu colo.
Ela apareceu na portinha dos fundos. Era mais velha que a minha mãe, e tinha o cabelo da mesma cor.
Ela passou as mãos pelo meu rosto na tentativa de secar minhas lágrimas, o que fez com que elas jorrassem com mais força.
‘ Não chora minha linda… Eu sei que sente saudade da sua mãe’
Ela passou as mãos pelos meus cabelos que estavam emaranhados…
‘ São exatamente da cor de madeira…’
E chorando, eu ri. Por reflexo… Imaginando galhos de arvore crescendo na minha cabeça.
‘Olha que sorriso bonito!’
E eu vi como o sorriso dela é que era bonito! Tipo de fada, ou de princesa!
Depois, à noite com os cabelos molhados eu me sentia tão bem… Dormi na casa da minha tia, e sonhei com aquela tarde toda denovo…
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Ela tem alma de peixe…
Ela ainda tem a eternidade para pensar debaixo d’água…
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… E quando a Luna chega… toca Nobody’s Daughter – hole
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"La Despedida"

Tive vontade de falar de Marina. De falar de Luna através dela. Admito que o passado dessa história me instiga um pouco mais do que o presente. Ocorre o contrário com a Manu. Se ela é Valentina, eu sou Marina: Aquele cheiro de antigo mistério, aquela dor pelo não ser e toda a fúria de não amar. Assim é Marina. E ela se despede.

“La Despedida” é um quadro da pintora Remédios Varo que serviu como uma luva a uma cena do roteiro e como um guia para a estética do passado. A emoção, as cores, a poesia do quadro anseiam por ultrapassar o movimento das imagens de “Bliss” e tocarem vocês. Esperamos tocar intensamente! O êxtase do prazer e da dor. Assim seja!

Marina já foi tocada por um “Bliss”. Agora aguarda a hora de poder falar, de poder concretizar em uma catarse exibicionista, tudo o que guardou. As águas rolam, as sombras se encontram e o destino nunca pára. Eu sou Marina. Eu sou mistério, fome e torpor. E, como dirá Valentina: “A despedida é, por natureza, a sugestão do reencontro”.

E no início…

Primeiros passos para nós atrás da idéia linda delas. Entrei neste barco para ser bucaneiro, lavar convés, içar a vela, subir a ancora e o que for preciso. Barco no mar capitão.
Oh captain my captain! (Whitman)
A alusão aqui à frase do filme Sociedades dos poetas mortos não é mera coincidência ou brincadeira. É uma referência porque assim como este filme, o texto das meninas me chamou por dentro. (é uma alusão a frase no filme, e não ao poema de Whitman)
Entrei por amizade? Também, porque não. Amigos acreditam em amigos. Mas acima de tudo pela idéia. Pelo que me despertou, pela vontade de ver na tela, pela vontade de sentir junto com a história, pela imagem que o texto já me despertou e que me deixou com fome e sede. Para assistir e sentir um pouco da doação em algo que acredito.
Ontem pessoas ao redor da mesa, xícaras de café, chocolate quente, choconhaque, sorrisos, empolgação de coisa tomando forma, novos rostos, gente se conhecendo e reconhecendo. Vontade, vislumbres, ainda que sutis e tênues. Muita coisa para fazer, e muita coisa a descobrir…
E que venha o mar…
Karen S. Corrêa

Valentina’s Diary – I

Em primeiro lugar… tratando-se de escrever em geral , o que sempre me surpreende é que cada vez que eu escrevo um personagem eu tenho mais certeza: Eu não faço os personagens… Eles se fazem através de mim. E escrever a Valentina, em especial, foge à minha compreensão a maioria das vezes, porque ela é do tipo de personagem que não se abre para mim quando eu quero (Só tenho esse ‘issue’ com ela e com mais uma personagem minha). É ela quem faz as regras.

Por isso, em estilo ‘quase psicótico de ser’, decido apresentá-la através das páginas do seu diário.

Ps – Sei que não falei sobre mim, mas acho que hoje é só sobre ela!

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Valentina’s Diary I

INSÔNIA

Eu sempre gostei do que se acumula se emaranha e confunde os olhos nos recantos dos recintos.

Mas o tempo fez de mim uma minimalista praticante.

As pessoas estão acostumadas a te dizer para rezar para a luz, mas eu aprendi que tudo, absolutamente tudo, pode acontecer no escuro.

É quando estou deitada no canto escuro que o gato vem e ronronando deita-se no meu travesseiro e me acaricia.

Eu penso que as pílulas podem ter me dado uma impressão errada, mas não há duvidas: De fato ele passa as patas pelo meu rosto e me acaricia…

Por trás de cada verdadeiro tesouro sempre tem de existir uma lenda.

Ouvi dizer algo sobre gatos de qualquer espécie. Era que se você olhar bem fundo dos olhos dele, ele tomará sua alma e a levará com ele, ele a fará sua escrava.

Não me lembro quando eu percebi o quanto tinha afinidade com felinos, mas me lembro da primeira vez que ela me disse que gostava de gatos.

Começo a pensar que pode ser verdade, quando ainda no escuro e com ele no meu travesseiro, me pego retribuindo aquelas carícias por gratidão. Seu pêlo na minha pele leva toda a corrente pesada que impedia que eu fechasse os olhos e me tornasse inconsciente. E eu, ligeiramente frágil, posso ser tão grata pelo que ele fez por mim que seria capaz de ficar a noite toda acariciando-o até que ele resolva dormir.

Detenho-me de praticar esse rito quando sinto a unha dele, tocar sem querer a maçã no meu rosto. Em uma contração involuntária me lembro que ela não ficaria ali a noite toda. Na verdade ela já teria se levantado há muito tempo, depois de descobrir o que realmente precisava fazer.

Ela compreenderia que ele era uma ponte, entre ela e o que ela precisava. E ela não se importaria tanto com ele, ela não se importaria muito com ninguém.

Eu rezei para o claro essa noite, pensando nos conselhos alheios, mas não sei se quero codificar relação entre esse ato, com o que se iluminou no escuro, mesmo estando claro que algo inusual aconteceu.

Como gosto de acreditar na veracidade, mesmo que parcial do que é antigo penso que a lenda talvez simplesmente não funcione para todo mundo… Porque se a alma dela não está guardada dentro do meu colar, eu garanto que não está nos olhos de gato algum. Ao contrário, acho que seria mais fácil ver almas de gatos tentando escapar pela boca dela.

Voltando a ser eu, sinto uma pontada no coração. Saudade dela. Dói. Ao mesmo tempo penso que estou cansada, de às vezes ser ela, às vezes ser eu. E justo eu, que sei viver o duplo com tanta maestria. Sei que não nasci assim, mas pratiquei tanto que hoje não lembro como era quando era diferente.

… I fake it so real I have beyond fake….*

No escuro eu entendi do que eu precisava. Era isso que importava.

Eu sempre gostei do que se acumula se emaranha e confunde os olhos nos recantos dos recintos.

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Mas o tempo fez de mim uma minimalista praticante.

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…Apesar disso ainda me surpreendo quando descubro que escrever é a solução.

* Referencia a música Doll Parts – Hole

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As outras personagens serão apresentadas (e eu também)…. questão de tempo.

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Simultaneidades

Com “Bliss” descobri o quão workaholic eu sou e quanto prazer tenho em trabalhar com coisas nas quais realmente acredito. As férias não significaram pausa, apesar dos momentos de descanso. Estamos trabalhando incessantemente para fechar a equipe, planejar os testes de elenco, finalizar etapas do projeto audiovisual, encontrar referências audiovisuais, estudar os formatos de distribuição, entre outras tantas coisas.

No meio deste percurso, algumas coisas me deixaram extremamente satisfeita. Para começar, a entrega e avaliação do pré-projeto, no semestre que passou. 3 madrugadas seguidas, depois de muitas outras madrugadas em claro valeram muito à pena quando recebemos os elogios do professor que escolhemos como orientador com relação ao roteiro. Saber que temos uma boa história nas mãos e um roteiro maduro, no qual já existem indícios da proposta estética é muito bom!

Escrever o roteiro em dupla também foi uma experiência surpreendente e positiva. As personagens vão ganhando mais e mais vida em conversas que tenho com a Manu. E personagens profundas são assim mesmo, pulam pra fora do roteiro e gritam na nossa cara como agiriam em situações do nosso dia-a-dia. Falarei sobre elas mais tarde, é muito caso para contar!

“Bliss” começou a tomar forma na minha cabeça a partir do poema do post anterior. Desde então algumas bençãos e sincronicidades vêm acontecendo e indicando que estamos no caminho certo. As dificuldades vão sendo resolvidas pouco a pouco e as surpresas agradáveis vão superando qualquer obstáculo.

Outra coisa que me deixou bastante feliz foi a quantidade de atores e atrizes que trabalharam com diretores reconhecidos, em filmes e emissoras importantes, candidatando-se para atuar na série mesmo sabendo que não temos recursos para pagar cachê. Culpa da idéia, da história, das personagens? Não sei! Só sei que me faz muito bem e me ajuda a disfarçar as olheiras com o sorriso de satisfação a cada etapa que conquistamos.

Aproveito para pedir desculpas aos atores pelo atraso quanto ao retorno previsto na divulgação dos testes de elenco. Estamos agendando o local e separando as cenas direitinho. Até essa semana entraremos em contato.

Aguardem, e muito “Bliss” pra vcs! 😉

Inspiração

The Shampoo – Elizabeth Bishop

The still explosions on the rock,
the lichens, grow
by spreading grey, concentric shocks.
They have arranged
to meet the rings around the moon, although
within our memories they have not changed.

And since the heavens will attend
as long on us,
you’ve been, dear friend,
precipitate and pragmatical;
and look what happens. For Time
is nothing if not amenable.

The shooting stars in your black hair
in bright formation
are flocking where,
so straight, so soon?
– Come, let me wash it in this big tin basin,
battered and shiny like the moon.

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O Banho de Xampu (trad. Ruy Vasconcelos de Carvalho)

Os liquens – silenciosas explosões
nas pedras – crescem e engordam,
concêntricas, cinzentas concussões.
Têm um encontro marcado com
os halos ao redor da lua, embora
até o momento nada tenha mudado.

E como o céu há de nos dar guarida,
enquanto isso não se der,
você há de convir, amiga,
que se precipitou;
e eis no que dá. Porque o Tempo é,
mais que tudo, contemporizador.

No teu cabelo negro brilham estrelas
cadentes, arredias.
Para onde irão elas
tão cedo, resolutas?
– Vem, deixa eu lavá-lo, aqui nessa bacia
amassada e brilhante como a lua.